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Localização: Trás-Os-Montes, Portugal

Domingo, Março 12, 2006

O Relógio

Isidoro tinha medo que o tempo passa-se. Tinha medo de não conseguir fazer algo digno de registo. Olhava constantemente para o relógio, com medo de deixar passar o tempo sem nada fazer. O medo cresceu, uma obsessão apoderou-se de Isidoro…. olhava exclusivamente para o relógio. E a contagem decrescente prosseguia sempre ao mesmo ritmo, segundo a segundo, dia após dia….
Anos se passaram, Isidoro achou que já não tinha tempo e perdeu o medo, mas continuava a olhar para o relógio porque estava viciado ou porque se tinha habituado e não sabia fazer mais nada. Gostava de recordar o tempo em que fora criança, que brincava e não sabia ver as horas. Enquanto criança não fazia planos ou arquitecturas para o futuro, só existiam noites e dias. Agora enquanto o relógio consumia os dias, tinha quase a certeza que não existia futuro… o tempo é sempre igual, é um ciclo que se repete de 12 em 12 horas, a única diferença é a quantidade de luz que varia alternadamente… dias e noites. A única frase que Isidoro dizia: “ Em criança sabia mais que agora.”
No manicómio, assim os populares lhe chamavam, onde vivia, nunca ninguém reparou nos problemas de Isidoro, talvez porque cada médico, cada enfermeiro tivesse o seu próprio tempo, tivesse o seu próprio relógio. Isidoro também tinha o seu próprio tempo, talvez com mais consciência do que outra pessoa qualquer, o seu tempo psicológico era igual ao seu tempo biológico, que achava igual ao tempo físico.
O relógio parou. Isidoro morreu, o seu relógio era um relógio que media o tempo através das pulsações…
Quem herdou o relógio foi o sobrinho Inácio, amigo da pândega e do mulherio.
Colocou o relógio no pulso e logo começou a fazer projectos para o futuro. A ansiedade aumentava de dia para dia… tinha um objectivo claro para um futuro breve, ficar rico e famoso. Quanto mais o tempo passava menos probabilidade tinha de atingir o seu objectivo. Olhava constantemente para relógio … continuava a medir o tempo em espaços cada vez mais curtos…. Media o tempo segundo a segundo.
Quem sentiu a sua falta, a de Inácio, foi a Rita. Ainda bem que o fez, que o homem estava completamente vidrado no maldito relógio. Dançaram os dois como se fossem um só, dançaram na pista dos lençóis brancos ao som da música dos desejos secretos, aumentaram o volume até ao limite das suas forças físicas…
Inácio, até ter aquele relógio media o tempo, pelas distância entre cada foda… ou um outro qualquer prazer menor… «Maldito relógio que quase arruinava a minha vida, a minha riqueza é o amor e a música de cada momento. O futuro são o adicionar de novos momentos, e se planos para o futuro faço é porque cada plano é um momento que guardo com alegria…. mesmo que não se realize, o plano, terei dele lembrança… De trabalho, comida e bebida também é o homem feito….», pensou Inácio.
Quando Rita se foi embora, Inácio ganhou coragem porque era um objecto atraente, partiu o relógio. Partiu e viu, do interior, sair uma luz, parecida como seu tio maluco. Viu fogo, ou julgou que viu porque tudo isto foi um breve momento, e viu o Diabo, como se todo o Inferno estivesse contido naquele maldito relógio… deitou o relógio ao rio, que se o diabo gosta de fogo não deve gostar muito de água… e mais que não fosse aquele relógio havia de ficar perdido no tempo…
Ainda bem que o prazer o tinha safo de um fogo eterno….

6 Comments:

Blogger Ana Pinheiro said...

O relógio faz-nos perder os momentos...Todos os Inácios deveriam ter uma Rita...
Beijo terno.

5:50 PM  
Blogger chuvamiuda said...

.....Isidoros, Inácios e Ritas, peões de fogueiras da cegueira e do desepero, são arrastados pelas correntes de rios de águas turvas, a vida não dá tréguas, a vida é uma complexa teia de conflitos, uns que criamos outros que nos impõem.....
Abraço

7:11 PM  
Blogger Beatriz said...

obrigada pela visita, caro escritor. Na verdade, mais do que o tempo que condensa a alma em ansiedade e projectos meramente idealizados, há quem tenha o tempo sem que tenha um projecto concreto ou um traçado para lhe dar uso. Há quem tenha mesmo agora aprendido a ver as horas e procure então compassar a vida com os valores que defende e o tempo que lhe sobra...
Enfim... vai havendo tempo para viandar pela blogolândia. Um dia, não haverá mais.

9:57 PM  
Blogger Mac Adriano said...

Como Inácio foi capaz de pressentir, não devemos ser escravos do tempo.

12:09 AM  
Blogger antimater said...

Desta gostei. Tudo que meta o "tempo" ou a "memória" são as minhas histórias preferidas.
São os Grandes temas...
Não sei se o Epicuro tinha relógio, o que sei é que já ninguém se lembra disso.
Entretanto, "prazer sim mas devagar"...

1 abraço

.o)

8:23 PM  
Blogger segurademim said...

... não gosto do objecto, atrapalha-me o pulso, prende-me a compromissos, a mim que sou uma amante da liberdade!

;)

9:40 AM  

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